Dicionário

O Dicionário da Comida Política foi elaborado em parceria com a Crioula | Curadoria Alimentar (@crioulacuradoria ou crioula.net). A Crioula é uma empresa social da Bruna de Oliveira e da Betina Aleixo (maravilhosas!) que cria soluções ecológicas para os diferentes sistemas alimentares. Conheça esse projeto incrível e apoie a Crioula aqui. 

ADITIVOS ALIMENTARES: São substâncias usadas em algumas das etapas no processo de industrialização de alimentos em larga escala. Sua função é modificar propriedades físicas, químicas, biológicas ou sensoriais (cor, brilho, odor, sabor e textura). Não são consumidas como alimento, nem  utilizadas como ingredientes básicos em alimentos. Os aditivos alimentares não têm propósitos nutritivos. O consumo crescente e constante de aditivos alimentares está relacionado a diversas doenças crônicas não transmissíveis. A regulação de cada país é diferente para a utilização de aditivos alimentares em seus processos industriais. A partir de um índice de Ingestão Diária Aceitável (IDA), a legislação brasileira regulamenta, e a ANVISA fiscaliza, as quantidades de aditivos alimentares permitidos em cada produto. Porém, nas embalagens não há indicação das doses utilizadas destas substâncias na produção dos alimentos ou a sugestão sobre quantidade segura para o consumo.

Alguns exemplos:

Acidulante – Aumenta a acidez ou confere sabor ácido aos alimentos

Antioxidante – Retarda o aparecimento de alteração oxidativa no alimento

Aromatizante – Substância ou mistura de substâncias com propriedades aromáticas e/ou sápidas, capazes de conferir ou reforçar o aroma e/ou sabor dos alimentos

Conservador – Impede ou retarda a alteração dos alimentos provocada por microrganismos ou enzimas

Corante – Confere, intensifica ou restaura a cor de um alimento

Emulsionante/emulsificante – Torna possível a formação ou manutenção de uma mistura uniforme de duas ou mais fases imiscíveis no alimento

Espessante – Aumenta a viscosidade de um alimento

Estabilizante – Torna possível a manutenção de uma dispersão uniforme de duas ou mais substâncias imiscíveis em um alimento

Realçador de sabor – Ressalta ou realça o sabor/aroma de um alimento

Regulador de acidez – Altera ou controla a acidez ou alcalinidade dos alimentos

Sequestrante – Formam complexos químicos com íons metálicos e protegem os produtos de deterioração durante o processamento e estocagem.

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AGRICULTURA FAMILIAR: é um sistema de agricultura onde o trabalho é predominantemente realizado por uma família ou uma pessoa, tendo como principais características: o vínculo com a segurança alimentar e autossuficiência de produção; a forte influência de práticas e conhecimentos tradicionais e culturais; e por consequência, o fortalecimento e preservação de sistemas agrobiodiversos e ecossistemas naturais.

No Brasil, dentre as mais de 40 milhões de pessoas vivem no campo, temos mais de 4 milhões de propriedades ligadas à agricultura familiar, que representam a maioria das propriedades rurais existentes. No entanto, a agricultura familiar possui apenas ¼ das terras brasileiras cultiváveis, sendo ¾ utilizadas pelo agronegócio. Se considerarmos que a agricultura familiar produz mais de 70% dos alimentos que todos os brasileiros comem diariamente, significa que a toda essa produção vêm de uma parte muito pequena de terras, se compararmos com o agronegócio.

Fontes: documentário Agricultura Tamanho Família (acesse aqui) e TV USP Piracicaba – O que é agricultura familiar? (acesse aqui)

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AGROCÍDIO: termo usado pra resumir toda a destruição causada pelo agronegócio. Devastação ambiental, intoxicação por agrotóxicos, matança de animais em larga escala, perda da biodiversidade das florestas, contaminação das águas, genocídio indígena e campesino.

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AGROECOLOGIA: é uma ciência, com características transdisciplinares, focada nos princípios e práticas ecológicas, considerando também aspectos sociais e culturais, que resultam em um modelo de desenvolvimento agrícola sustentável. Um pedaço de terra que produz comida de forma agroecológica se preocupa em regenerar e preservar os ecossistemas naturais; respeitar os processos naturais e sazonalidades; valorizar o conhecimento tradicional dos trabalhadores rurais, comunidades e povos originários; preservar a sociobiodiversidade, a soberania e segurança alimentar; utilizar recursos orgânicos, renováveis e locais para manejo da produção. Em resumo: na agroecologia não tem esse negócio de monocultura, de usar agrotóxicos e fertilizantes químicos, nem de chamar as plantas de “pragas” ou “ervas daninhas”. É uma outra relação com a natureza, entende? Não é só deixar de usar veneno. Em resumo, taí uma alternativa maravilhosa pra alimentar o mundo sem destruir o planeta. Chora, agronegócio!

Fontes: IPEA (acesse aqui), INCRA (acesse aqui) e Embrapa (acesse aqui).

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AGRONEGÓCIO: setor da economia responsável pelas atividades produtivas de agricultura e pecuária de grande escala. O agronegócio abrange: serviços, técnicas e equipamentos agropecuários; produção e distribuição de fertilizantes e agrotóxicos; desenvolvimento de tecnologias e biotecnologias que aumentam os níveis de produtividade; entre outros.

No Brasil, o agro é responsável por mais de 20% do PIB porque quase tudo o que é produzido vai pro exterior, não alimenta a gente. São as famosas “commodities” negociadas na Bolsa de Chicago: soja, milho, carnes, algodão, cana de açúcar, café, laranja, trigo, celulose, etc. No entanto, a gente não pode concluir que o agronegócio gera riquezas porque ele também é um dos setores mais financiados pelo próprio governo. Só o estado de São Paulo deixa de arrecadar R$ 1,2 bilhão em impostos por ano porque os grandes fazendeiros ganham diversos incentivos fiscais. Além do que, os senhores do veneno têm mais facilidades pra conseguir empréstimos em bancos públicos, como Banco do Brasil e BNDES, conseguem o perdão de dívidas e aprovam leis a seu favor. Só no Congresso, a bancada ruralista, que defende os interesses desses grandes fazendeiros, tem 257 deputados e senadores. Assim é fácil passar a boiada, né?

E não custa lembrar: o agro não é pop, não é tech, não é pop, nem é o pequeno produtor, muito menos abrange a produção agroecológica. Os valores que guiam esse setor são o lucro a qualquer custo, o que inclui submeter muitos trabalhadores a condições de trabalho análogas à escravidão, desmatar com queimadas ou com derrubada de árvores, invadir parques, reservas e territórios indígenas. Por isso, o agronegócio se tornou uma grande máquina de exploração de animais, o que inclusive gerou diversas pandemias, como a do coranavírus, é uma das maiores ameaças à preservação ambiental, além de ser um grande colaborador para as mudanças climáticas, emissões de poluentes e adoecimento de populações. Pra fechar, o crescimento do agronegócio aumenta a desigualdade no campo e coloca a nossa segurança e soberania alimentar em risco! As sementes transgênicas estão apagando a nossa imensa diversidade de milhos crioulos, por exemplo. Muitos agricultores estão deixando de plantar feijão, mandioca, hortaliças, arroz, batata doce, etc, pra produzir soja, porque é mais lucrativo. E esse é mais um motivo pro aumento no preço dos alimentos nos últimos anos. Daqui a pouco vamos precisar importar tudo de fora porque o Brasil inteiro vai ser só pasto e plantação de soja.

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AGROTÓXICOS: São substâncias químicas tóxicas, utilizadas para eliminar seres vivos de um ambiente, seja ele agrícola, urbano, florestal, hídrico, industrial ou ecossistema natural. Também conhecidos como venenos, pesticidas, defensivos agrícolas, agroquímicos ou, até mesmo, produtos fitossanitários, os agrotóxicos são utilizados para alterar a composição da flora e da fauna, com a justificativa de preservá-las da ação “danosa” de seres vivos considerados nocivos, as chamadas “pragas”.

Os agrotóxicos são classificados de acordo com sua função: inseticidas, larvicidas, formicidas, fungicidas, herbicidas, etc. Também são considerados agrotóxicos produtos desfolhantes, antibrotantes, dessecantes, e conservadores de madeira. Estas substâncias são utilizadas tanto no meio agrícola (etapas de produção, limpeza, depósito ou beneficiamento), quanto em meios não-agrícolas (florestas nativas ou outros ecossistemas, como lagos e açudes). O veneno mais vendido no Brasil é o glifosato, base do rond up, um herbicida que não deixa o mato crescer. Então em vez de roçar o mato, o agricultor despeja veneno mesmo.

O Brasil, além de ser o maior consumidor de agrotóxicos do mundo desde 2008, também é considerado um dos maiores consumidores de agrotóxicos classificados como “altamente perigosos”. Sabe por quê? Nós somos o lixão químico do mundo. Os venenos proibidos lá fora são despejados aqui, já que a nossa legislação é mais permissiva e a gente ocupa um lugar de submissão no mercado internacional. A Bayer, empresa alemã que produz o Glifosato, e a Sygenta, empresa suíça comprada pela China, não vendem seus produtos no seu próprio país de origem porque são proibidos. Então eles despejam aqui. É uma hipocrisia descarada mesmo!

O uso de agrotóxicos não mata apenas o ser vivo pra quem ele é destinado, como insetos ou fungos. Ele adoece e mata o agricultor, acaba com os insetos polinizadores, importantíssimos pra nossa segurança alimentar, destrói tudo o que é organismo vivo no solo, contamina a água e o ar. Apesar dos danos sociais serem mais graves pro agricultor que aplica, as pessoas que consomem os alimentos envenenados também podem desenvolver doenças crônicas, câncer, alergias, etc. As embalagens de agrotóxicos também geram um passivo ambiental imenso, uma vez que necessitam de descarte especial e criterioso. Ah! A Anvisa só faz testes de monitoramento de agrotóxicos em vegetais in natura, como morango, pimentão e tomate. É por isso que a gente esquece ou acha que os agrotóxicos não tão nos ovos, leite, carnes, lasanhas congeladas, farinhas, hambúrgueres, sorvetes, etc.

Em resumo: a gente não resolve a questão dos agrotóxicos apenas comprando alimentos orgânicos porque eles já tão no ar e na água. A gente precisa de uma grande mobilização pra acabar com esse problema na raiz e incentivar os produtores a parar o uso por meio de um projeto de transição agroecológica. Conheça a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida (acesse aqui).

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ALIMENTOS IN NATURA: São os alimentos que obtemos de forma direta e natural, sem que haja nenhuma intervenção ou alteração em sua estrutura ou composição, como frutas e verduras. Em resumo: da horta direto pro prato. De acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira, são os alimentos que devemos priorizar e consumir diariamente. Acesse o guia completo aqui.

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ALIMENTOS MINIMAMENTE PROCESSADOS: São os alimentos in natura que passaram por alterações mínimas (moagem, limpeza, fermentação, pasteurização, congelamento) sem que fosse adicionado nenhum ingrediente ao alimento original (sal, açúcar, gordura, etc). Eles também estão na categoria de escolhas saudáveis para compor nossa alimentação diária, sendo alguns desses alimentos: farinha de mandioca, feijão, arroz, goma de tapioca, fubá, cuscuz, castanhas, amêndoas, gergelim, canjica, sagu, açúcar mascavo, rapadura, sucos naturais pasteurizados sem adição de açúcar.

Observação: açúcar branco e farinha de trigo deveriam entrar nesse grupo, mas sabemos que algumas marcas utilizam aditivos no processo de refinamento. Saiba mais aqui.

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ALIMENTOS PROCESSADOS. São os alimentos que receberam a adição de sal, açúcar, gordura ou vinagre e que a gente consegue fazer suas versões em casa, também consegue identificar perfeitamente qual a sua matéria-prima original. Por exemplo: um espaguete é um alimento processado, vem da farinha de trigo e pode incluir sal ou açúcar, algum corante natural, como cúrcuma ou colorau, ovos, etc. De acordo com o guia alimentar brasileiro, devemos consumi-los com moderação. Outros exemplos: compotas, queijos, carne seca, pães, bolos caseiros, molho de tomate (os mais naturais)..

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ALIMENTOS ULTRAPROCESSADOS: São mentiras empacotadas na maior parte das vezes, que a gente não conseguiria replicar em casa. Esses produtos passaram por tantos processos industriais e tiveram a adição de tantos corantes e conservadores que a gente nem sabe mais do que são feitos. Em geral, são nutricionalmente desbalanceados, ou seja, contém muito açúcar, sal e gorduras, além de confundir o nosso paladar, que se acostuma e cada vez pede mais alimentos desse tipo.

E sabe os comerciais e propagandas de alimentos? Quase sempre são desse grupo aqui: refrigerantes, salgadinhos, biscoitos recheados, suco em pó, temperos instantâneos, sorvetes, etc. Pra identificá-los é só espiar a lista de ingredientes. Tem corante artificial? Aromatizante? Proteína isolada? Melhorador de farinha? Sequestrante? Então é ultraprocessado! O guia alimentar orienta que a gente evite ao máximo o consumo desses produtos porque eles contribuem pro desenvolvimento de doenças crônicas não-transmissíveis, como diabetes e hipertensão, além de destruírem a nossa cultura alimentar e o planeta, já que precisam de muitos recursos naturais. E tem mais. Também é não o fim do mundo comer alguma coisa desse tipo esporadicamente, o problema maior é substituir refeições frescas e caseiras por esse tipo de produto. Ou seja, trocar um prato de arroz, lentilha e salada por um macarrão instantâneo ou cachorro quente.

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BANCADA DO BOI: também conhecida como “Bancada Ruralista”, trata-se de um grupo de 257 deputados e senadores que compõem a Frente Parlamentar Agropecuária, responsável por defender os interesses de produtores e empresários de setores do agronegócio. Em muitos casos, os próprios congressistas são grandes fazendeiros, ou seja, estão defendendo os seus interesses pessoais. A atual ministra da Agricultura, Teresa Cristina, é produtora rural, assim como o ex-ministro da mesma pasta, Blairo Maggi, produtor de soja. Os produtores dessa commodity são os mais poderosos do setor, seguido por produtores de milho e carnes. Por isso, a criação de gado (boi) está direta ou indiretamente ligada aos interesses da bancada. Junto com as Bancadas do Bala e da Bíblia, os senhores do boi compõem a maioria do congresso e influenciam praticamente todas as nossas políticas públicas. Bancos e grandes multinacionais de alimentos também financiam campanhas e costumam apoiar a Bancada do Boi.

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COBERTURA DE SOLO, SEGUNDO A RAINHA ANA MARIA PRIMAVESI: Na agroecologia, a saúde do solo é o que garante a saúde das plantas. Pra isso, a terra nunca deve estar exposta diretamente ao sol ou à chuva, ela precisa sempre estar coberta com matéria orgânica (folha secas, palha, sobras do manejo, serragem) como numa floresta. E isso também vale pra quem planta em pequenos vasos em apartamento.

Essa técnica também funciona como alimentação para o solo por meio da decomposição da matéria orgânica depositada, cujos nutrientes são absorvidos pela terra.

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COMMODITIES: são aquelas mercadorias considerados primárias pras indústrias e comércios internacionais que sempre vêm acompanhadas de devastação ambiental. No caso das commodities alimentícias, elas são produzidas em grandes monoculturas, geralmente com uso intensivo de agrotóxicos e sementes transgênicas. Já que essas mercadorias são a base para produzir outros produtos, em escala global, seus valores são muito competitivos, sujeitos ao mercado internacional e negociados nas bolsas de valores ao redor do mundo. Uma safra de soja pode ser negociada 2 anos antes dos grãos serem plantados, por exemplo. E por tudo isso que é a gente diferencia commodity de alimentos.

As principais commodities brasileiras são: soja, milho, petróleo, algodão, minério de ferro, carne vermelha, trigo, café, cana de açúcar, laranja, carne de porco, frango.

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DESCOLONIZAR: Movimento de emancipação que conduz a um processo de independência, autonomia e reparação histórica. A descolonização pode acontecer de forma pacífica, por meio de acordos políticos e econômicos, de forma violenta, por meio de conflitos, ou pode ser um longo percurso simbólico. No caso do Brasil, nós somos independentes de Portugal há muito tempo, mas ainda carregamos as imensas marcas desse processo e repetimos a lógica colonizadora até na comida, nos hábitos, no jeito de plantar, de organizar nossas cidades, de estar no mundo.

Descolonizar, então, seria o processo conhecer e reconhecer quem somos, valorizar a nossa diversidade e culturas originárias e tradicionais. É recontar a nossa história sob a ótica dos oprimidos, defender as nossas florestas nativas de pé, garantir a preservação de costumes locais, comidas regionais. É não deixar o brownie apagar a broa de fubá, o miojo apagar o arroz com feijão, o pão com manteiga apagar a tapioca. Em resumo, descolonizar é uma contraposição ao que a maravilhosa ativista indiana Vandana Shiva chama de “monocultura de pensamento”. Entenda aqui.

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ECOLOGIA: É o estudo das relações, conexões e processos entre todos os seres vivos e o ambiente em que habitam. A palavra “ecologia” deriva do grego oikos, que significa “casa”, e logos que significa “estudo”, ou seja, o “estudo da casa”. A agroecologia, então, pode ser entendida como um modelo de agricultura que inclui a ecologia, ou seja, respeita o meio ambiente e não tem apenas o lucro como objetivo.

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ECOSSOCIALISMO: Ideologia política, ramificada do socialismo, que propõe uma política econômica que priorize as necessidades sociais e o equilíbrio ecológico, oferecendo uma alternativa de sociedade não especista, sem foco no produtivismo, repensando questões como organização do trabalho, qualidade de vida para gerações presentes e futuras, descolonização de conhecimento e justiça social. Pra saber mais, conheça a dona do mundo Sabrina Fernandes e o canal Tese Onze. Saiba mais aqui.

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ECOFEMINISMOS: São ramificações do movimento político-social “feminismo”, que inclui também a defesa e preocupação com o meio ambiente. Este conceito foi criado na década de 70 dentro de uma perspectiva de luta pelos direitos de decisão sobre o próprio corpo e controle do aumento populacional. No entanto, atualmente, as reivindicações estão em torno das consequências das mudanças climáticas, reconhecimento do trabalho feminino rural, substituição da “dominação” pela “colaboração, e respeito à todas as formas de vida. No Brasil, uma das grandes disseminadoras da palavra do ecofeminismo é a catarinense Daniela Rosendo, autora dos livros Ecofeminismos e Sensível ao Cuidado.

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ESPECISMO: Conceito criado na década de 70 pelo psicólogo e escritor britânico Richard D. Ryder, que se baseia na discriminação entre os seres vivos, onde o ser humano, Homo Sapiens, se identifica como superior às demais espécies não-humanas. A crença neste conceito gera uma percepção de que as espécies “inferiores” existem para servir os propósitos de existência da espécie “superior”. A luta contra essa lógica especista é a causa principal do movimento vegano, especialmente a vertente anticapitalista.

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FRIGORÍFICOS OU ABATEDOUROS: trata-se da indústria de abate, manipulação, armazenamento, conservação e distribuição de bois, frangos e porcos, ou outros animais, que vão virar alimentos. Pelas condições insalubres, baixos salários, excesso de movimentos repetitivos, esse é um setor de grande exploração humana também. Em grande parte do mundo, os trabalhadores dos frigoríficos são refugiados ou imigrantes em situação de vulnerabilidade, com baixa escolaridade e em situação de pobreza. No Brasil, esse é o setor que lidera o índice de acidentes de trabalho por dia na área de alimentos, com uma média de 54 acidentes. Para saber mais, acesse aqui o documentário Carne e Osso.

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LATIFÚNDIO: Termo utilizado durante a colonização portuguesa para a demarcação e distribuição de terras brasileiras em grandes lotes. É o termo que designa a propriedade rural de grande extensão, que pode ser produtiva ou improdutiva, geralmente tendo como proprietário uma ou poucas pessoas, famílias ou empresas. Quando o latifúndio é “produtivo” (risos), geralmente está relacionado à produção de commodities.

O Brasil tem um dos maiores índices de concentração de terra do mundo. Só os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul concentram a maior parte das propriedades rurais com mais de 10 mil hectares. Essa concentração fundiária é a causa dos maiores conflitos sociais e desigualdades brasileiras, o que torna cada vez mais urgente a necessidade da implementação de uma reforma agrária no país.

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MONOCULTURA: é a prática de cultivo de uma única espécie. Usualmente este termo se refere A produções agrícolas (principalmente em latifúndios), mas pode também ser aplicado à pecuária. O destino deste tipo de produção geralmente é a exportação de commodities. Os exemplos de monocultura mais conhecidos são soja e milho.

A monocultura também está associada ao desenvolvimento de diversos problemas socioambientais, tais como: uso intensivo de agrotóxicos, desequilíbrios ecológicos, desmatamento e destruição de ecossistemas naturais, diminuição de agrobiodiversidade, aprofundamento da desigualdade social e concentração de renda e propriedades.

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NUTRICIONISMO: Conceito criado para nomear essa tendência atual de resumir os alimentos apenas a nutrientes. A lavagem cerebral do nutricionismo é tão grande que muita gente não consegue mais escolher o que vai comer pela sazonalidade, por desejo, pelas questões culturais. Tudo isso é apagado e o ato de comer vira um cálculo matemático de doses de licopeno, proteína, vitamina A, antioxidantes, etc. Dessa forma, os alimentos só podem ser consumidos de tiverem um objetivo nutricional. Essa visão, no entanto, é super perigosa porque pode levar ao desenvolvimento de transtornos alimentares, como a ORTOREXIA, a obsessão por alimentação saudável.

Isso tudo teve início lá pelos anos 1960, junto com a loucura das dietas. Começaram a bombar uns estudos nos EUA sobre os nutrientes presentes nos alimentos, que ganhavam uma imensa repercussão na imprensa. Com as redes sociais então, a coisa piorou muito. Quem lucra com isso? A senhora grande indústria de alimentos, claro. Basta tacar umas propagandas de nutrientes nas embalagens, patrocinar uns estudos, manipular o que entendemos por comida e nos roubar toda a parte cultural e política do ato de comer. Enfim, resumir comida a nutrientes é uma ótima ferramenta, camuflada de preocupação com a saúde, pra nos manter alienados e reféns de pacotes, de modismos e comidas de mentira. Afinal, você deixa de comer uma tapioca pra comprar um pacote de biscoitos funcionais, com gojiberry, chia, 5% de vitamina K e zero açúcar.

Para conhecer mais, consulte o livro “Em defesa da comida” (2008) do escritor Michael Pollan.

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PLANTAS ALIMENTÍCIAS NÃO CONVENCIONAIS (PANCs): termo referente a toda planta ou parte de planta comestível pouco conhecida ou utilizada na alimentação de uma localidade ou nação. Podem estar inseridas nesta categoria: sementes, folhas, caules, rizomas, bulbos, frutos, cipós, pigmentos naturais entre outras partes vegetais. Elas podem ser nativas ou exóticas do território que estejam presentes. O que torna uma planta dentro da categoria PANC é sua capacidade de se tornar alimento e comida para a humanidade.

É importante pensarmos que a lógica das PANCs é nos emancipar de um sistema alimentar colonizado e com pouca diversidade de alimentos. Não faz sentido tornar ora pro nobis ou jenipapo um fetiche, por exemplo, e comercializá-los a preços exorbitantes ou insistir em plantá-los em regiões não favoráveis. Aproveite para observar e estudar o que nasce espontaneamente e você pode coletar de graça no seu entorno. Saiba mais nesse resumão da Crioula Curadoria.

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PECUÁRIA: atividade econômica que consiste na criação de animais, principalmente o gado, para abate ou obtenção de derivados. A atividade pecuária é responsável, principalmente, pelo fornecimento de carnes (bovina, aves, suínas, entre outras), leites, ovos, mel. Mas também é o setor que fornece fibras como couro, lã e seda.

Na pecuária intensiva, o gado é criado em confinamento para acelerar o processo de engorda, recebendo altas doses de hormônios e antibióticos, bem como processos de inseminação artificial e clonagem. Na pecuária extensiva, mais comum no Brasil, o gado é criado solto em pastagens durante a maior parte da vida, sendo uma atividade muito comum em propriedades rurais de grande porte e latifúndios. No entanto, é importante frisar que não existe pecuária sem impacto ambiental. É possível sim, reduzir danos, quando os animais são criados soltos em biomas favoráveis, como os pampas gaúchos, ou quando estão integrados a agroflorestas. Mas não existe “carne sustentável”. Só em relação ao consumo de água, os animais de criação exigem 5 vezes mais do que plantações de cereais, por exemplo.

Os bichos confinados são um prato cheio para o surgimento de pandemias, precisam de muitos antibióticos por conta do estresse das condições de aprisionamento e doenças, além de gerar um problema surreal por conta do alto índice de dejetos. No caso dos bois e vacas, ainda tem o gás metano, que contribui pro aquecimento global. Além disso, a pecuária lidera o ranking de trabalho análogo à escravidão no Brasil.

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PERMACULTURA: Vai além de um jeito de plantar. Trata-se de uma forma de enxergar o mundo mesmo. A permacultura reúne saberes transdisciplinares, tecnologias e conhecimentos ancestrais, atuais e científicos, para o desenvolvimento de ocupações humanas sustentáveis. Atualmente, entende-se que a permacultura é baseada em três pilares: cuidar da terra, no sentido de cuidar dos recursos naturais; cuidar das pessoas, no que diz respeito à vida social em harmonia em conexão com a Natureza; e a partilha justa, que se refere à criação sistemas de compartilhamento, limitando os excessos de consumo e acumulação.

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REFORMA AGRÁRIA: é uma reforma estrutural e mais justa na distribuição de terras no campo. Se você defende o fim das desigualdades sociais, precisa ser um aliado na luta pela reforma agrária popular. Durante a história, diversos países fizeram reformas agrárias, como os Estados Unidos, México e França –  sendo a Revolução Francesa considerada o primeiro grande movimento político de reforma agrária da era moderna.

No Brasil, país extremamente dependente do agronegócio e com alta concentração de terras, não foi realizada uma reforma agrária estrutural após sua Independência. Um dos períodos da história brasileira em que se tinham intenções políticas de promover uma reforma agrária, foi durante o governo de João Goulart (Jango), com a então chamada Reforma Base, que se tornou um dos estopins para o golpe militar de 1964.

O principal movimento social que luta pela reforma agrária popular aqui no Brasil é o Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que se articula junto com a organização internacional Via Campesina.

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RACISMO AMBIENTAL: é a discriminação racial no direcionamento deliberado de comunidades étnicas e minoritárias para exposição a locais e instalações de resíduos tóxicos e perigosos, juntamente com a exclusão sistemática de minorias na formulação, aplicação e remediação de políticas ambientais.

É uma discriminação que abrange questões territoriais. Pode ocorrer no meio urbano ou rural por meio de práticas ofensivas ao meio ambiente, e/ou, discriminação de grupos sociais geograficamente localizados, e podem ser motivadas por raça e/ou classe social. O racismo ambiental é causador de injustiças cometidas contra grupos vulneráveis, geralmente, durante a realização de políticas públicas ou obras do setor privado. Essas violações de direitos ocorrem tanto no campo quanto no meio urbano.

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RENÚNCIA, INCENTIVOS, BENEFÍCIOS OU SUBSÍDIOS FISCAIS: São ajudinhas nas esferas municipais, estaduais ou federais, em forma de isenção ou redução de impostos para auxiliar ou incentivar alguns setores da economia e ou projetos sociais. Os benefícios fiscais são concedidos pelo Estado na perspectiva de esse investimento trará, em contrapartida, benefícios para a sociedade e para a economia. No entanto, na prática, quem mais se beneficia desses incentivos são grandes empresas poluidoras, gigantes de ultraprocessados (como as empresas de refrigerantes na Zona Franca de Manaus) e as gigantes do agronegócio. Por outro lado, produtores familiares e agroecológicos precisam pagar todos os impostos.