Textões

Rede social é legal, mas tem hora que só uns textões trazem a ideia que a gente quer passar! Fiquem aqui com textões pra refletir e pra aprofundar:

  • Como analisar rótulos – parte 1
    Não é fácil mudar hábitos alimentares, né? Dizem que basta querer e ter força de vontade, mas na verdade tudo o que a gente come é influenciado por fatores para além da nossa casa. Nossas escolhas têm a ver com o lugar onde crescemos, com o processo de colonização europeia, a super influência dos Estados Unidos em cada respiro que a gente dá, o marketing das grandes empresas na TV, na internet, o tempo que temos disponível pra cozinhar, se temos acesso fácil a alimentos naturais e orgânicos, questões de renda, além de informação, claro, e outros mil fatores.  Tudo isso pra dizer que a gente precisa se preocupar em fazer escolhas alimentares saudáveis e sustentáveis, óbvio. Mas sem esquecer que isso não basta. Faltam leis mais rígidas que obriguem as empresas a serem mais honestas nas embalagens dos produtos, por exemplo. Faltam políticas públicas pra levar comida fresca aos desertos alimentares, pra restringir o uso de agrotóxicos, pra incentivar a produção de orgânicos, regras mais severas para a publicidade, principalmente para a publicidade infantil, etc.  Esse post tem 2 funções então: te ajudar a fazer escolhas mais conscientes no supermercado, porque é um direito seu saber exatamente o que tá comprando, mas também te convocar pra construir outro sistema alimentar junto comigo e junto com o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, o Idec, que me apoia nesse conteúdo. Ah! Aqui no Brasil, o principal órgão responsável por exigir que as empresas coloquem isso ou aquilo nos rótulos dos alimentos é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, que foi criada em 1999 e pertence ao Ministério da Saúde.  Mas antes de começar com as dicas sobre a análise crítica das embalagens, não custa lembrar: nem todo alimento processado ou industrializado é ruim, viu? Na verdade, se não fosse pelo processo de armazenamento e embalagem industrial eu não conseguiria comprar o arroz agroecológico maravilhoso produzido pelos assentados do Movimento Sem Terra. Entende? Moer, desidratar, pasteurizar, refrigerar, congelar, fermentar e embalar são processos básicos na indústria de alimentos. Sim, quanto mais artesanal o produto for, melhor, até pela questão social, né? De comprar de um pequeno produtor, em vez de uma mega empresa. Mas esses processos industriais básicos não podem ser demonizados. Em resumo, quase tudo o que a gente come passou por algum tipo de processamento, com exceção dos alimentos in natura, como brócolis e rúcula. Os grãos passam pela moagem pra virar farinha, os cogumelos e frutas são desidratados, leites vegetais ou animais são pausterizados, etc. O próprio Guia Alimentar para a População Brasileira, documento incrível, referência no mundo inteiro (acesse aqui), recomenda que a gente consuma alimentos processados ou minimamente processados também. Só fique atento pra 2 pontos. Procure alimentos processados à base de milho, como fubá, cuscuz ou flocão que não tenham o triângulo que indica a presença de milho transgênico. Mesma coisa pros alimentos que contém derivados de soja. E isso é mais comum de conseguir nas feiras do que nos supermercados. Outro ponto: goma de tapioca, por exemplo, é um alimento minimamente processado, mas varia muito de uma marca pra outra. Algumas incluem vários conservantes. Não deixe de conferir a lista de ingredientes, viu?  Agora, nossos olhos precisam estar atentos mesmo é pras mentiras empacotadas, os chamados alimentos ultraprocessados. São refrigerantes, bolos industrializados, hambúrgueres, nuggets, lasanhas prontas, macarrão instantâneo, biscoitos recheados, balas, sorvetes… Já existem muitos estudos que mostram que o consumo dessa galera tá associado ao desenvolvimento de doenças crônicas não-transmissíveis, como hipertensão e diabetes. E não para só na questão da saúde, né? Essas substâncias comestíveis também geram muito lixo, gastam muitos recursos naturais no seu processo de preparo e representam um tipo de comida muuuuuito distante do que nossas avós comiam. Sem vida, feita pra comer rápido, correndo, que não faz parte da nossa cultura alimentar. Fora a enganação do próprio produto em si, né? As marcas dizem que vendem fibras, sabor, energia, vitaminas, mas vendem mesmo é gordura de péssima qualidade, toneladas de sal e açúcar, além do combo fake: corantes, aromatizantes, espessantes artificiais, conservadores, etc.  Ah! Tem mais! Os produtos ultraprocessados são tão bizarros que fica mais difícil classificá-los em algo óbvio como “doce” ou “salgado”. Bebidas como refrigerantes, que entendemos como “doces”, tem doses exorbitantes de sódio, principalmente as versões light e zero. Assim como alimentos salgados, como aquele biscoito água e sal, possuem quantidades absurdas de açúcar.  Agora podemos começar o guia pra te ajudar na empreitada de encarar o supermercado com olhos mais atentos. Ah! Não tem uma ordem de prioridade aqui, viu? Vou listar os critérios que eu mesma uso na hora de escolher o que comprar. Veja o que faz sentido pra você. 1) Nome da empresa Existe uma pequena lista de multinacionais que controla basicamente TODA a produção de alimentos e bebidas do mundo. E elas vivem comprando empresas menores ou se fundindo entre si pra monopolizar um setor. Por exemplo: uma empresa brasileira chamada 3G Capital comprou o Burguer King e o catchup Heiz, e seus donos são acionistas da Ambev. E jeito de produzir dessas mega multinacionais a gente já conhece, né? Não tem como sair algo maravilhoso dos grandes monopólios. Essa galera não costuma remunerar de forma justa seus fornecedores (quando não estão envolvidas em casos de trabalho análogo à escravidão), causam danos ambientais surreais, quebram os comércios locais, investem muito em marketing, financiam pesquisas científicas que as favorecem (leia “Uma verdade indigesta”, da Marion Nestle!), influenciam políticas públicas de saúde do mundo inteiro e enchem médicos e nutricionistas de presentinhos. Na lista dessas megaempresas, algumas das que estão em peso nos nossos supermercados são: Coca Cola (Estados Unidos), simplesmente dona de 600 marcas, como Fanta, Mate Leão, Ades, Sprite, Sucos Del Valle, Schweppes, água Crystal, etc. Pepsico (Estados Unidos), dona das marcas: salgadinhos Elma Chips, Pepsi, Toddy, Toddynho, Kero Coco, Mabel, Quaker… Cargill (Estados Unidos), dona das marcas: Pomarola, Mazola, Olivia, Liza, Elefante, Maria, Purilev, Veleiro, Tarantella, Pomodoro, Extratomato.. Nestlé (Suíça), dona das marcas: Bonno, Leite Ninho, Nesfit, Nescafé, Neston, Mucilon, Nescau, Passatempo, Kit Kat, Leite Moça, Corn Flakes, Nesquik… Danone (Espanha), dona da marcas: Neoforte (fórmula infantil), Activia, Danette, Corpos, Actimel, Danoninho, Silk… Mondelez (Estados Unidos), dona das marcas: Trident, Milka, Nabisco, Oreo, Tang, Royal, Lacta, Sonho de Valsa, Babaloo, Bis, Trakinas.. Krafit Heinz (Estados Unidos), dona de marcas como a maionese e o catchup Heinz, creme Philadelphia, Quero!.. Unilever (Inglaterra), dona das marcas: Kibon, Hellmann’s, Becel, Knorr, Arisco, Lipton, Maizena… JBS/Friboi (Brasil), dona das marcas: Vigor, Seara, Danubio, Itambé, Faixa Azul, Leco, Frangosul, Swift, Doriana.. BRF (Brasil), dona das marcas: Sadia, Perdigão, Qualy, Banvit, Sulina.. Observação: há produtos sem ingredientes de origem animal no rótulo que não podem ser compreendidos como veganos na minha opinião, uma vez que as empresas utilizam animais na produção de outras linhas ou testam em animais ou patrocinam eventos como rodeios e vaquejadas ou financiam campanhas de políticos da bancada ruralista. Ou seja, não dá pra separar a empresa do produto! Tudo o que a gente come é político! 2) Lista de ingredientes A ordem dos ingredientes que aparecem na lista é decrescente, ou seja,  da maior quantidade pra menor, com exceção dos aditivos químicos, que sempre devem vir por último. Isso quer dizer que se açúcar for o primeiro da lista, é o que mais tem nesse produto. Esse é um bom jeito também de analisar se o alimento é realmente integral. Eu vejo assim: os cereais integrais precisam aparecer em maior quantidade que os refinados. Se tiver em dúvida entre comprar uma marca ou outra, não deixe de avaliar o número de ingredientes. Quanto menos, melhor. E itens como melhorador de farinha, aromatizantes, corante caramelo IV, gordura hidrogenada e açúcar invertido ou algo sem especificação, como proteína vegetal, por exemplo, indicam que o produto é um alimento ultraprocessado, bem distante da comida que preparamos em casa. Atenção! Açúcar camuflado! Ele pode aparecer “escondido” de mil formas na lista de ingredientes. Por exemplo: glucose, lactose, glicose, xarope de malte, sacarose, frutose, açúcar invertido, dextrose, xarope de milho, maltodextrina, maltose. Muitos sucos de frutas também são usados para adoçar produtos, como o suco de maçã. Todos eles são tipos de açúcares.  Não custa lembrar: A Organização Mundial da Saúde recomenda que o nosso consumo total de açúcar não ultrapasse 10% das calorias consumidas por dia. Maaaas, o Brasil ocupa o lugar de 4o maior comedor de açúcar do mundo, com uma média de 16, 3% das nossas calorias num dia. Saiba mais aqui. Atenção! Néctar camuflado de “suco”! Suco você conhece: é feito com a fruta fresca ou com a sua polpa congelada, mas também pode ser encontrado no supermercado na versão integral, como os sucos de uva sem adição de açúcar e sem aditivos químicos. Mas apesar das embalagens serem lindas, com frutas em destaque, brilhosas e suculentas, os néctares não são sucos. Eles costumam vir em caixinhas, são muito comuns na lancheira das crianças, e possuem entre 30% e 50% de fruta, depende do sabor. No caso de laranja e uva a legislação brasileira exige que os néctares apresentem 50% de fruta, manga e pêssego, 40%.  Mas pensa aqui comigo. Se esses néctares não são 100% fruta, o que mais tem ali além de água? Simples: açúcar, corantes, aromatizantes e outros aditivos químicos que barateiam o preço do produto e dão uma aparência de suco natural. Já os refrescos em pó, são uma roubada ainda maior. Tem marca que não alcança nem 1% de fruta. Ou seja, essas opções estão mais perto dos refrigerantes do que dos sucos naturais de fruta.  Atenção! Sódio camuflado! Assim como o açúcar, o sal aparece de formas ainda mais difíceis de decifrar. Ingredientes de origem animal como queijos e calabresa ou de origem vegetal, como azeitonas, também contém sal, o que não aparece na lista de ingredientes muitas vezes. Além disso, existem adoçantes que contém sal (ciclamato de sódio e sacarina sódica), fermentos (bicarbonato de sódio), realçadores de sabor (glutamato monossódico) e conservantes (como nitrito de sódio e nitrato de sódio), e que não entram na conta da quantidade de sal informada pela marca. Ou seja, a gente come MUUUUITO mais sal do que as embalagens informam. Bora ver um exemplo? As palavras em negrito representam o sódio camuflado na lista de ingredientes do produto acima: farinha de trigo fortificada com ferro e ácido fólico; linguiça calabresa (carne suína, sal, maltodextrina, pimenta calabresa, noz-moscada, dextrina, pimenta preta, estabilizantes: tripolifosfato de sódio e polifosfato de sódio; antioxidante isoascorbato de sódio; aromatizantes, acidulante ácido cítrico, reguladores de acidez citrato de sódio e lactato de sódio, conservadores nitrato de sódio e nitrito de sódio, corantes carmim de cochonilha, caramelo IV e vermelho beterraba), água, queijo mussarela, polpa de tomate, cebola, óleo de soja, azeitona, sal, dextrose, fermento biológico, azeite de oliva, extrato de malte, orégano, emulsificantes polisorbato 80 e estearoil 2 lactil lactato de sódio, melhorador de farinha: cloridrato de I-cisteína. Tem mais. Na tabela nutricional dessa pizza, a empresa informa que em cada 1/6 de pizza há 77mg de sódio. Isso significa que 1/6 dessa pizza tem 20% da quantidade de sódio que um indivíduo precisa num dia. Se uma pessoa come a pizza inteira sozinha em uma refeição, ela come muito mais do que o recomendado por dia. É surreal!  Não custa lembrar: A Organização Mundial da Saúde recomenda que o nosso consumo de sal não exceda 2g por dia. Mas, a média do Brasil já é o dobro do recomendado, cerca de 4,1g por dia. E isso não se deve apenas ao fato de que comemos feijoadas muito salgadas, mas pelo nosso alto consumo de alimentos ultraprocessados, como essa pizza aí de cima. Como se não pudesse piorar, um estudo do Idec constatou que muitas empresas informam uma quantidade menor de sódio do que o produto realmente tem. Confira a lista de produtos aqui e entenda os problemas relacionados ao alto consumo de sódio aqui. Atenção! Gordura trans camuflada: Esse ingrediente já foi banido do processo industrial de alimentos em vários países no…
  • A alimentação no novo governo
    Oi! Já li alguns balanços dos primeiros meses do governo Bolsonaro sobre outras áreas, mas até o momento não encontrei nenhum apanhado sobre o campo da alimentação. Como acredito que informação é um direito e precisamos ter acesso a tudo o que tá rolando, me debrucei sobre os principais decretos do novo presidente e resumi tudo nesse post.  Vai ser um bombardeio de notícia ruim, já aviso. Mas a gente só pode se mobilizar, se organizar e até opinar quando entendemos minimamente sobre os fatos, né? Boa leitura! Comida saudável, orgânica, natural tem que ser direito de todos. ⠂FIM DO CONSEA. O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) foi criado no governo Itamar Franco com o objetivo de atuar na combate à fome e à miséria no Brasil. Até janeiro desse ano, tinha a função de propor diretrizes e prioridades relacionadas à alimentação ao governo federal. Formado por membros do governo e da sociedade civil, o órgão vinha fazendo inúmeras críticas ao uso de agrotóxicos e defendia a agricultura familiar.  Entre as bandeiras do Conselho estava a luta pela não aprovação da PL do Veneno e a construção do Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar. Por mais que se resumisse a um trabalho de assessoria à presidência, o Consea incomodava (e muito!) as grandes corporações e o agronegócio.  O novo governo jogou tudo o que cabia ao Consea pra um novo ministério, o da Cidadania, mas sem incluir a participação da sociedade civil. Ou seja, agora a responsabilidade pela Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional fica a apenas com o governo. Adeus, Consea, adeus participação popular! Mas nem tudo está perdido: Essa medida do presidente só vale por 60 dias. Depois ela pode ser prorrogada por mais 60 dias e só. Vai precisar da aprovação do congresso pra continuar. Quer saber mais? Espia essa reportagem.  ⠂FIM DO MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL. O novo Ministério da Cidadania engloba o antigo Ministério do Esporte, o antigo Ministério da Cultura e o também extinto Ministério do Desenvolvimento Social, que coordenava a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. O novo governo manteve o programa, mas diversas associações e organizações entendem que a junção das três áreas dentro do mesmo ministério tende a enfraquecê-las e reduzir os recursos. Precisamos ficar de olho.  No fim do ano passado, o Ministério de Desenvolvimento Social publicou um trabalho maravilhoso chamado Mapeamento dos Desertos Alimentares no Brasil. De forma detalhada, o estudo apontou de que forma fatores como renda, região e tipo de estabelecimento influenciam a oferta de alimentos no nosso país. Foi a primeira vez que um estudo tão detalhado e tão grande sobre esse tema foi feito por aqui. Pra ler o mapeamento completo, clica nesse link. ⠂FIM DA SECRETARIA NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL. Em vez de realocar os funcionários da antiga Sesan no novo Ministério da Cidadania, o novo governo está exonerando a equipe de funcionários. Advogados, sociólogos e nutricionistas, que vinham fazendo um trabalho importantíssimo na construção de políticas de combate à fome e desnutrição no Brasil, não ocupam mais cargos em Brasília. A secretaria extinta fazia a ponte entre o governo federal e as ONGs, estados e municípios. Não sabemos se esse trabalho vai continuar e se terá a mesma força.  ⠂REFORMA AGRÁRIA SUSPENSA. Com o novo arranjo de ministérios, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) deixou de pertencer à Casa Civil e agora integra o Ministério da Agricultura. Sim, pode parecer piada, mas o órgão que trata da reforma agrária está nas mãos dos ruralistas, aqueles coronéis da soja transgênica e da criação de bois. Como já era mais do que esperado, o novo governo suspendeu 250 processos de aquisição de desapropriação de terras, além de interromper os 1.700 pedidos de identificação e delimitação de territórios quilombolas assim que assumiu.  Pra saber mais, clica aqui.  ⠂NOVA MINISTRA DA AGRICULTURA. Tereza Cristina, do DEM, é apenas a deputada federal autora do projeto que quer liberar a pastagem de bois em reservas ambientais. Prazer, essa é a nova ministra da agricultura. A pessoa responsável pelo que chegará na nossa mesa também votou a favor da PL do Veneno, a favor da PL da Grilagem, a favor da medida provisória que aprovou o aumento da área desprotegida (ou seja, desmatamento!) na Floresta Nacional do Jamanxim e na Serra do Cachimbo (PA), além do Parque Nacional de São Joaquim (SC). Como se não fosse o suficiente, a moça também votou pelo fim da exigência do daquele T no rótulo dos alimentos que possuem alguma coisa transgênica na composição.  Ah! Não custa lembrar: a ministra é proprietária de terra, dona da MMT NUTRICAO ANIMAL, que fica na cidade de Terenos, Mato Grosso do Sul. E como sempre pode piorar, durante a campanha eleitoral de 2014 ela recebeu R$ 100.000 em doações da Vetorial Siderurgia, empresa que já foi multada pelo Ibama e denunciada por trabalho escravo.  Resumindo: quando a gente acha que Kátia Abreu era grave, que Blairo Maggi já tinha entupido a gente de veneno o suficiente, somos presentados com a nossa amiga Tereza Cristina.  ⠂MAIS DE UM AGROTÓXICO LIBERADO POR DIA. Nos primeiros 47 dias de governo, Bolsonaro autorizou a entrada de 54 novos agrotóxicos no mercado. Nunca na história desse país outro presidente conseguiu tamanha proeza. Assim, chegamos ao maravilhoso número de 2.123 venenos licenciados por aqui. Só no dia 11 de fevereiro, foram 19 produtos autorizados, sendo que 12 ocupam o maior grau toxicológico possível. Entre os novos defensivos cancerígenos que tão chegando pra gente, estão o Mancozebe, usado pra cultivar arroz, banana, feijão, milho e tomate; além do Piriproxifem, destinado ao café, melancia, soja e melão, por exemplo. Para saber mais detalhes, clica aqui.  Resumindo: viramos o local preferido de descarte de agrotóxico do mundo. Tudo o que é proibido no exterior, as empresas gringas empurram pra gente e o nosso presidente aceita de braços abertos.  Ainda aguardamos a votação da PL do Veneno, que tá pra ser votada a qualquer momento na Câmara dos Deputados. Sobre esse projeto, explico tudo certinho aqui. ⠂GLIFOSATO À BEIRA DO RIO SÃO FRANCISCO. Como essa novela sempre pode ganhar novos capítulos e um final ainda mais assustador, no dia 13 de fevereiro o Ibama autorizou o uso de glifosato, o veneninho da Monsanto associado à causa de câncer, em caráter emergencial pra combater as árvores Algaroba (Prosopis juliflora), localizadas na beira do Rio São Francisco. Ok, já sabemos que essa planta ameaça a biodiversidade do semiárido do Nordeste. Mas até eu que sou uma ninguém na fila do pão sei que existem formas menos nocivas de conter plantas invasoras e que não precisamos entupir um dos rios mais importantes desse país de glifosato! Chamem os especialistas em agrofloresta! Pra ler o decreto completo, clique aqui.  ⠂NOVAS PRIORIDADES DA ANVISA. Fevereiro já pode ser considerado o mês nacional do veneno! No dia 13, saiu a nova lista anual de temas que serão prioridade pra Agência Nacional de Vigilância Sanitária até 2020. E olha só que coisa interessante. Saiu da lista a revisão da capacidade toxicológica do agrotóxico acefato, conhecido no mundo todo por seu potencial cancerígeno. Ou seja, não teremos uma segunda chance pra provar que se trata de um veneno perigosíssimo. Pra ler o documento completo, clica aqui.  ⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻ É isso. Queria trazer boas notícias, mas não é possível neste momento. Pra continuar por dentro do assunto, indico essas páginas: ⠂ Por trás do alimento ⠂ O Joio e o Trigo ⠂ De olho nos ruralistas ⠂ Ruralômetro    ⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻⁻ Ah! Gostaria de agradecer aos apoiadores do Catarse, que me permitem dedicar mais tempo ao Comida Saudável pra Todos. E esse apoio tornou possível posts como esse! MUITO OBRIGADA! 😄 Se quiser apoiar também, clica aqui. 
  • Broa de milho e os transgênicos
    Demorou, mas aqui está. Podia ter publicado essa receita há décadas, mas queria aproveitar o milho pra falar de transgênicos. Achei que fosse ser rápido, mas comecei a estudar, estudar mais, depois inventei de ler artigos, ir atrás da lista dos deputados que votaram a favor da PL pelo fim da rotulagem dos transgênicos, e esse post virou uma novela. Entrei em crise. Fiz um post imenso, cheio de gráficos e links de pesquisas, de reportagens, que levou dias. Aí repensei. Acho que estamos todos cansados de tanta informação nesse período eleitoral e um post mais enxuto, com uma linguagem menos pesada, pode chegar a mais gente! Foi isso que fiz então. PRA COMEÇO DE CONVERSA O que são os transgênicos? São seres vivos que tiveram seu material genético modificado artificialmente, ou seja, pelas mãos de um homem. Com o diferencial de que tiveram o gene de outra espécie adicionado ao seu gene. No Brasil, os maiores representantes dos transgênicos são a soja, o milho, o algodão e a cana de açúcar (recentemente). Isso quer dizer, em linhas gerais, que estamos comendo uma pamonha bem diferente da que a nossa avó comia. Ela não foi feita a base de uma espiga de milho que nasceu de uma semente ancestral.  Quando começou esse negócio? O primeiro alimento que passou por esse processo e chegou ao supermercado foi o tomate. Isso aconteceu em 1994, nos Estados Unidos. A justificativa da empresa criadora do tomate modificado foi que ele demoraria mais pra estragar. Qual é a situação no Brasil? Segundo o relatório mais recente do Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações Agrobiotécnicas, de 2017, a nossa situação atual é essa: 96, 5% da soja; 88,4% do milho e 78,3% do algodão produzidos no Brasil já são transgênicos. Quem aprova o uso dessas sementes por aqui é uma comissão do Ministério da Ciência e Tecnologia, chamada CTNbio. Até julho de 2017, esse grupo já autorizou 67 plantas transgênicas para cultivo no país.  Por que a gente deve se preocupar com esse assunto? Primeiro, porque ele envolve 3 temas importantíssimos pro planeta.  1) economia: investir em transgênicos significa deixar a alimentação de países do mundo inteiro reféns de 6 empresas donas das sementes, que lucram absurdamente para fornecê-las. 2) fome: os defensores dos transgênicos argumentam que eles são a solução pra fome mundial. 3) saúde pública: ainda não sabemos o impacto que esses alimentos geneticamente modificados podem causar pra saúde porque é um assunto muito novo, ainda não deu tempo de termos evidências científicas. O que já se sabe sobre esse assunto no Brasil?  A Embrapa e os reis da soja defendem que as sementes transgênicas são a salvação das lavouras. Espie o posicionamento da Embrapa aqui. Do outro lado, há ambientalistas e pesquisadores que argumentam que os transgênicos tendem a causar um grande desequilíbrio no meio ambiente, além de não ser tão benéfico para o produtor rural. Como mostra essa pesquisa da Unicamp. A toxicologista da Fiocruz Karen Friedrich, nesta reportagem da BBC Brasil, defende outro ponto importante: que os transgênicos não diminuíram o uso de agrotóxicos, como muita gente diz por aí. Pelo contrário. Em geral, as sementes transgênicas são vendidas em combo, em parceria com os defensivos. De onde vêm as sementes transgênicas? Esse é um dos principais pontos levantados pelos pesquisadores que criticam a transgenia. São poucas empresas no mundo que fabricam essas sementes. E olhe que interessante: são as mesmas empresas que produzem os agrotóxicos. São elas: as alemãs Bayer e Basf, as americanas Dow Chemical, DuPont e Monsanto, e a suíça Syngenta. Juntas, essas 6 empresas são donas de 66% do mercado de sementes transgênicas e 76% do mercado de agrotóxicos. Então funciona assim: quando a gente compra essas sementes pras lavouras brasileiras, a gente tá patrocinando esse monopólio.  Tem países que proíbem o plantio de sementes transgênicas? Sim. França, Alemanha estão entre os 19 países da União Europeia que baniram os transgênicos da agricultura.  O que é o Projeto de Lei 4148/2008, também chamado de PL da rotulagem dos transgênicos? Qualquer produto industrializado que tenha algum alimento transgênico na composição, como o milho num pacote de salgadinho, precisa ter aquele selo amarelo, com um triângulo e o “t” dentro na embalagem. Isso vale desde 2003. É uma forma de dizer ao consumidor o que ele tá comprando. Mas, o Projeto de Lei 4148/2008 quer acabar com a obrigação desse selo. O projeto já foi aprovado na Câmara dos Deputados e agora aguarda votação no Senado. Quer saber detalhes desse projeto, espia aqui. Como cada deputado votou? Quem votou SIM, votou pra gente perder o direito de saber o que estamos comprando! Pra saber o voto de cada deputado, espia esse link. A lista está organizada por partidos políticos. Ah! Inclusive tem candidatos à presidência nessa lista. PRA SABER MAIS Esse compilado pode parecer superficial, mas a ideia desse espaço não é ser uma revista científica, né? Eu sou jornalista, não posso fazer muito mais do que reunir informações a partir de fontes minimamente confiáveis e resumi-las. Se você já costuma ler sobre esse assunto, recomendo os seguintes materiais pra aprofundar mais os teus conhecimentos. – Essa é a lei brasileira que regulamenta o uso de sementes transgênicas. – O documentário “O mundo segundo a Monsanto” é obrigatório pra todo mundo que se interessa em saber o que come. – Nesse relatório, em inglês, a Organização Mundial de Saúde responde a dúvidas sobre os transgênicos. RECEITA – Broas de milho com resíduo de leite de coco – R$ 4,58 Mais uma vez fica a comprovação de que preciso de um curso de fotografia de comida. Como eu, Juliana, não confio em alimentos transgênicos, tento comprar produtos naturais sempre que posso. No caso da receita de hoje, usei uma farinha de milho orgânica e não transgênica que ganhei de uma amiga. Ela trouxe diretamente de um assentamento do MST no Rio Grande do Sul. O que amo nessa receita é que ela leva o resíduo de leite de coco, que sempre tenho toneladas em casa, já que faço leite desse fruto toda semana. Rendeu 30 mini broas e elas podem ser congeladas ainda cruas por até 3 meses. Ingredientes ⠂1 xícara e 1/2 de farinha de trigo ⠂1 xícara e 1/2 de fubá ⠂1 xícara de açúcar demerara ⠂3/4 de xícara de resíduo de leite de coco bem sequinho (escorra bem!) ⠂1/2 xícara óleo de girassol ⠂1 xícara de leite vegetal ou água ⠂1 pitada de sal ⠂1 colher de fermento pra bolo (ou 1 colher de sopa de vinagre de maçã + 1 colher de café de bicarbonato de sódio) ⠂canela a gosto (opcional) Observação: já fiz a mesma receita com farinha de aveia em vez de farinha de trigo. O sabor fica o mesmo, mas a textura fica meio pegajosa. Parece uma bolachinha, não broa. A substituição fica a teu critério. Como eu fiz Pré-aqueci o forno por 15 minutos. Misturei os ingredientes secos primeiro, depois os líquidos. Por último, o fermento. Fiz bolinhas pequenas e gordinhas com as mãos e coloquei numa assadeira untada. Dei uma leve achatada em cada uma com a colher. Salpiquei canela por cima e levei pro forno por 35 minutos a 200 graus. Observação: quando tirar do forno, vai parecer que as broas ainda tão meio molengas. Mas pode confiar que elas vão endurecer ao esfriar. Não deixa muito tempo no forno porque vão ficar duras feito pedras! Eu já fiz isso várias vezes, inclusive. Ah! Como muita coisa se perde nas redes sociais eu comecei a mandar as novidades do Comida Saudável pra Todos por e-mail. Vêm alguns cursos em SP por aí e mais algumas novidades pro Brasil inteiro. Não quer perder? Preencha esse formulário com os teus dados. 
  • Como eu virei vegana
    Já faz 1 ano e meio que entrei pro grupo do povo que responde: “nem carne, nem peixe, nem ovo, nem leite, nem mel, nem couro, nem afins”. Mas demorei a escrever sobre essa decisão aqui porque eu achava que precisava de mais segurança, ter lido mais livros pra não falar nenhuma besteira, ou fazer uma imensa, completa e deslumbrante explicação do que é “especismo”.  Até que criei vergonha na cara e entendi que esse dia talvez jamais chegue. Simplesmente porque as coisas foram muito simples pra mim. E acho válido contar esse processo porque muita gente acha o veganismo “difícil”, coisa de outro mundo, algo que exige um empenho gigantesco.  Eu também achava isso, tá? Foi um dos motivos de ter me enrolado por tanto tempo. Mas, ao contrário de muita gente, eu fiz o caminho inverso, não comecei pela comida. Roupa, bolsa e sapato de couro eu sempre achei cafona mesmo, além de caro. No geral, ao longo dos meus 6 anos de ovolactovegetarianismo já fui deixando de comprar tudo que era testado em animais. Aliás, acho que essa é a coisa mais fácil de fazer o ser humano se sensibilizar. Alguém, de fato, acha aceitável a ideia de encher coelhos engaiolados de alergias bizarras para testar um batom, por exemplo? Acho que não. O ser humano é cheio das serumanices, sabemos. Mas tendo a achar que ainda nos resta o mínimo de sensibilidade para alguns questões. E os testes em animais costumam causar mais impacto nas pessoas do que a indústria dos animais de corte pra alimentação, né? Comigo foi assim.  Lugar de vegano é na feira, não no freezer de hambúrgueres ultraprocessados do supermercado.                               Vamos à parte de passar vergonha então. Não tenho vontade de dar tapas nas pessoas e gritar “acorda!” quando falam que existe leite de vaquinhas felizes (e o mesmo pros ovos das galinhas) porque eu mesma fui uma dessas. Pra você entender o nível da minha cara de pau, eu até comia ostra raramente quando me dizia ovolactovegetariana porque moluscos parecem plantas! hahaha #vergonhadefine. Eu repeti por anos o discurso de que bastava dar condições melhores pros animais e pronto. Bora comer o nosso macarrão cheio de queijo ralado em paz! Mesmo sendo adulta, eu também jamais tinha parado pra pensar em como funciona o processo de fabricação do leite e seus derivados. Nunca passou pela minha cabeça que não era algo natural, que a vaca era engravidada à força e depois não podia destinar todo o seu leite pra alimentar o filhote, que era separado dela inclusive. Interessante esse negócio de um ser não ter o direito reprodutivo sobre o próprio corpo, né? Você já ouviu isso em algum lugar? Eu já! E aí tá uma das conexões que a gente faz entre feminismo e veganismo. Enfim, eu nunca entendi que havia um caminho a ser percorrido e que podia ir além. Sempre me achei o maior exemplo de coerência e ativismo da humanidade por não comer picanha nem usar sabão em pó testado em animais. E as referências que eu tinha de gente vegana só pioravam isso. Eu demoreeeeeei até encontrar as Sandras do mundo. Só conhecia as moças loiras que passam férias em retiros veganos em Bali ou aquele povo gratiluz-do-bem-que-cura que ama os animais, mas diz que bandido bom é bandido morto.  Quando eu comecei a encontrar pessoas legais e vi que o veganismo tava mais próximo de mim do que eu imaginava e era um negócio possível, entrei naquela onda de questionamentos. Do tipo: 1. tá, mas a galinha não sofre pra colocar o ovo. 2. tá, mas posso ser vegana e ter composteira com minhocas? 3. vou poder matar as baratas que surgem lá em casa?  4. se eu for na casa de uma pessoa super simples, como vou recusar o pouco de comida que ela pode me oferecer? Se o veganismo é uma luta contra exploração, conectada a outras,o nosso lugar é do lado da luta pela agroecologia.                         Quando eu cheguei nesse ponto é que iniciei os estudos, de fato. Comecei com artigos de blogs, como da Sandra, da Thallita Xavier. Vi uns vídeos da Sabrina Fernandes sobre a relação entre o veganismo e agronegócio, etc. Eu já era a louca que queria colocar fogo nos ruralistas, mas não entendia que a indústria do leite, por exemplo, também tá ali juntinha e amarradinha com a pecuária.  Aí a Sandra veio para uma série de palestras pelo Brasil e ficou na minha casa. Até hoje me lembro daquele mini ser com sotaque potiguar e sua pequena mala passando pela minha porta e me abraçando como se a gente se conhecesse há décadas. Se você não conhece a Sandra pessoalmente, vou tentar transmitir a sensação de tê-la por perto: é como se um furacão te sacudisse, mas de forma afetuosa! Sério! Ela me disse 2 coisas que nunca esqueci e que me fizeram abraçar o veganismo na mesma hora.  Coisa 1 que aprendi com Sandra: O maior inimigo do veganismo hoje é o agronegócio, principalmente no Brasil. E aqui eu entendo o agronegócio como um dos filhotes do sistema capitalista, tá? Não existe outra coisa que faça tantos animais sofrerem quanto essa mega indústria voltada à criação de animais, principalmente pra exportação, e de produção de grãos pra virar ração pra alimentar esses animais. Depois eu fui mergulhar no assunto e percebi que a gente não tá defendendo apenas os bichos quando queremos acabar com o agro. A gente quer libertar os trabalhadores explorados, já que a pecuária lidera os índices de trabalho análogo à escravidão, a gente quer libertar as florestas, proteger os rios, evitar novos genocídios indígenas, distribuir de forma justa as terras desse país.  Coisa 2 que aprendi com a Sandra: Ela também me ensinou que é arrogância nossa achar que outras pessoas não vão entender o fato de sermos veganas, principalmente as mais simples. E, caso a gente explique com humildade, respeito, e elas não compreenderem, o problema já não é mais nosso. Mas isso não quer dizer que a gente saia com um adesivo na testa e anunciando pra deus e o mundo que somos veganas, tá? Pelo contrário, tem muito lugar que vou que nem falo nada. A gente tem que ter essa sensibilidade também, de sentir quando cabe conversar sobre ou não. E tem vezes que tô de saco cheio ou com preguiça e se alguém pergunta porque não comi isso e aquilo eu invento que tô fazendo um tratamento espiritual! hahahaha É a melhor desculpa do mundo! Todo mundo respeita, ninguém questiona. Veganismo vai além da libertação dos animais! A gente quer acabar com a exploração dos trabalhadores e do meio ambiente também! Agora, outra coisa importantíssima que todo mundo precisa saber é que não existe veganismo puro e perfeito. Não existe um empresa que te dá uma carteirinha de mais ou menos vegano. A gente vive numa sociedade fincada na visão de que animais vieram ao mundo para nos servir, assim como a natureza. Isso quer dizer que às vezes não dá pra escapar. Você pode precisar de um remédio que foi testado em um animal. Você pode comprar uma cerveja de uma marca que patrocinou um rodeio sem saber. Talvez você não tenha tempo de fazer seu próprio amaciante de roupas e não tenha dinheiro num mês pra comprar aquele da empresa que não testa. Ninguém é menos vegano por isso, entende? E tem muita situação e circunstância onde nem temos respostas ainda. A gente vai conversando, discutindo e aprendendo.  Lá em casa, por exemplo, temos uma composteira com minhocas. Lucio ganhou da prefeitura num sorteio quando já era vegano e não quis recusar. Eu não gosto dessa ideia e acho que as minhocas precisam sair dessas caixas. Então a gente ainda tá negociando sobre como vamos resolver a questão. Por outro lado, Lucio é muito mais sensível e proativo em resolver e denunciar maus tratos a animais, por exemplo. Muito mais do que eu.   Outra coisa que eu ainda tô aprendendo é sobre os corantes que são feitos à base de insetos. Bala é uma coisa que nunca tive o hábito de comer, então nem leio nada sobre. E já aconteceu de comer e depois descobrir que tinha a bosta do corante carmin, tirado de um bichinho chamado conchonilha. O que você precisa saber é que nenhum vegano precisa andar com uma tabela de empresas e composição de rótulos de produtos nas mãos 24h por dia. É óbvio que não recomendo chutar o balde e sair comendo qualquer coisa que você “achar” ser vegano. Não é isso, tá? A gente precisa estudar sim se quiser ter um posicionamento coerente com o veganismo, é inevitável, mas não faça disso algo que o impeça de ser vegano, viu? E é mais ou menos assim que tá rolando comigo. No geral, tem sido infinitas vezes mais simples do que eu imaginava. Eu como coisas básicas no dia a dia, como costumo mostrar no Instagram, e se quero comer algo mais elaborado sem vender um rim, dá pra arrumar um falafel aqui, um yakissoba de legumes melhorzinho ali. O que não dá pra é pra ficar criando expectativa de que o mundo vai veganizar junto contigo. Aí só vai rolar frustração quando sair de casa. Eu já entro em qualquer bar sabendo que só vai ter batata frita. E pronto! Se tiver outras opções, aí já vira uma festa! hahahaha Pra mim nunca foi tentador cair no conto do veganismo-paga-pau-de-indústria porque ultraprocessados, como maionese e hambúrgueres congelados, nunca fizeram parte da minha vida adulta, nem antes de ser vegana. Eu já via essa galera como nada saudável e super poluidora há muito tempo. Além de que essas versões veganas são caríssimas.  Fui ler mais sobre veganismo anticapitalista mesmo pra argumentar com as pessoas que idolatram essas opções e me enchem o saco no Instagram. Aliás, parem de me mandar fotos de produtos e escrever: “O que você acha, Juliana?” Eu me sinto como se o Instagram fosse um Tinder de produtos da Nestlé. Credo!  Exemplo de almoço sem defeitos: alface, arroz, feijão,quiabo grelhado e almôndegas de berinjela. Enfim, é isso. Quando a gente descobre que o veganismo tá conectado a outras lutas antiopressões, como o feminismo, a luta antirracismo, contra homofobia, etc, tudo faz mais sentido! E dá muito mais gás de ir correndo arrancar todas as correntes humanas e não-humanas do mundo! Uhul! E quando a gente entende o conceito de especismo é que cai a ficha de que não basta a galinha não sofrer pra colocar um ovo da mesma forma que a vaca sofre pra dar leite! A questão é deixar os animais em paz, livres para viver por outros propósitos que não sejam servir ao ser humano.  É muito louco parar pra pensar no quanto o ser humano transformou tudo ao seu redor em recursos à seu dispor, né? Eu nunca tinha parado pra pensar nisso antes de ser vegana.  Tirando a parte de comida, eu já era a pessoa natureba, tipo uma versão mais pobre da Bela Gil, que faz seus próprios produtos de limpeza e usa cosméticos naturais há muito tempo. Minha pasta de dente é bicarbonato com óleo de coco, já uso xampu em barra pra lavar o cabelo há eras, não tomo anticoncepcional há 4 anos, e a última vez que tomei um remédio na vida foi quando peguei dengue, em 2013.  Limpo a casa inteira com o produto maravilhoso da Cristal Muniz, à base de sabão de coco, que também uso pra lavar roupas. Desinfetante, por exemplo, eu faço de álcool de cereais com cascas de tangerina! Aprendi com a Cristal também.  Desinfetante que uso em casa: é só encher um vidro com cascas de frutas cítricas e cobrir com álcool de cereais! Deixa curtindo por uns 5 dias e já pode usar.  De cosméticos, eu uso óleos vegetais ou manteigas…