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Extratos da gravidez

Minha vida tá tão doida nesse 2022 que resolvi começar um diário pra tornar tudo mais leve, organizar a cabeça e presentear o meu eu do futuro com umas risadas hahaha. Parte desse diário tá sendo enviado pra galera que apoia o meu trabalho no Catarse, nas Colheradas do Mês. E pra te dar um gostinho do formato, segue a edição de janeiro abaixo. Pra ter acesso às próximas, é só assinar aqui, a partir de R$7 por mês e, de quebra, já apoiar meu trabalho.

Azia, pudim de chia e chutes

6 de janeiro, quinta. Primeiro banho de rio do ano. Parece que tirei um hipopótamo das costas. Ainda não escrevi uma única linha na minha agenda de 2022. Aliás, ainda nem aprendi a usar a minha agenda de 2022. Faço esquema de cores por áreas da vida? Mas depois tenho que carregar mil canetinhas na bolsa. Tô xingando todos os meus podcasts preferidos por estarem de férias, quando o meu próprio podcast tá de férias.

8 de janeiro, sábado. Acordei 4 vezes de noite pra fazer xixi. Na segunda não consegui voltar a dormir rápido. Peguei o kindle e li um ensaio do livro Antropoceno sobre a origem dos ursos de pelúcia. Bizarro. Rolou uma febre de caçar ursos nos EUA. Sempre os EUA. Aí o desgraçado do Roosevelt foi participar e não conseguiu matar o seu próprio urso. Então uma galera da equipe amarrou o bicho pro presida finalizar o serviço e o moço achou “antiesportivo”. Se recusou. A história vazou e rolaram umas charges zoando o presida, chamando o bonito de fracote, etc. Daí veio a ideia genial de fabricar ursinhos de pelúcia em homenagem ao episódio do presidente amarelão. Preciso lembrar de nunca comprar um urso de pelúcia pro meu filho. Conhecimento às vezes é uma merda.

11 de janeiro, terça. Me veio um pensamento do nada de que devia comer pudim de chia, coisa que sempre detestei. Não sei. Me parece que chia tem cara de coisa que faz bem pra um bebê. Tem gosto de coisa estranha cheia de nutrientes e tem gosma. Alimentos com gosma sempre são maravilhosos: linhaça, ora pro nobis, quiabo. Aliás, preciso pesquisar a origem da chia. A única coisa que sei é que eu tô estranhíssima. Até perguntar pra minha nutricionista se eu devia tomar proteína de ervilha em pó eu já perguntei hahaha. Terminei o dia me arrastando porque é aniversário do meu avô e pela primeira vez em 34 anos eu não posso ligar, já que ele morreu. Meu avô detestaria pudim de chia.

12 de janeiro, quarta. Dia do inferno do exame da glicose, mais o de sangue mais o de urina. A vontade de fazer xixi é maior que a fome. No laboratório tem uma fila imensa pra fazer teste de covid. 2 anos de pandemia e a galera ainda não entendeu que nessa bagunça vai sair todo mundo daqui com covid. Nunca vi uma fila desse tamanho antes. Apelei pro meu privilégio de grávida e chamei uma moça da recepção pra me passar na frente da fila. A moça de trás da fila com uma criança no colo me cutucou e disse que meu vestido engatou na bolsa e minha calcinha tava aparecendo. Status do dia: pelada, faminta e quase toda mijada. No fim, até achei que esse exame de tomar um copo imenso de um negócio que parece Sprite sem gás fosse pior. O sofrido foi esperar 2h numa sala sem janela com outra gestante, cuja máscara tava no queixo. Ela também não pagou 1 real pelos exames. O SUS é um sonho.

14 de janeiro, sexta. São 2h40 da madrugada e tô molhando as plantas da varanda porque não consigo dormir de tanta azia porque acabei comendo um prato imenso de feijão, pirão e couve às 22h, enquanto via a novela, que tá um porre, e o buço de ninguém mexe porque todo mundo tem botox. Tô sozinha hoje. Lucio precisou resolver coisas da casa nova na civilização. Tudo é mais difícil sozinha. Passei 4h tentando emitir uma nota fiscal, bloqueei um ser malcriado no Instagram, limpei vômito de gato, fiz meu treino, tomei banho. Só depois que consegui comer. A azia também pode ser do suco de uva. Só o que me falta é não poder mais beber suco de uva. Reler esse livro sobre o amor da bell hooks foi a melhor decisão do meu 2022 até o momento.

18 de janeiro, quarta. Calor dos infernos. Preciso sentar a cada 2 segundos porque minha pressão tá mais baixa que as chances do infame ganhar essas eleições. Até que o pudim de chia de hoje prestou. Acho que colocar uns pedaços de manga dá uma salvada. Com morango e cacau achei sofrível. Acho que vou começar a planejar um cardápio semanal de café, almoço, janta e lanches. Quando eu tenho fome, a fome já vem de um jeito descomunal, não dá tempo de pensar. E preciso organizar melhor os lanches pra não perder tanto tempo no meio da tarde. Essa criança tá dançando um samba enredo na minha barriga. Jesus, como mexe. Será que puxou a mãe?

20 de janeiro, quinta. Saiu o resultado do exame e não tenho diabetes gestacional. Não vou ler uma única notícia hoje pra não estragar esse clima de vitória! Eu tava me borrando porque meu primeiro exame de glicose deu no limite, o que faz bastante sentido tendo em vista que passei 3 meses praticamente só comendo pão e bebendo água tônica, de tanto enjoo. Uma amiga recomendou seguir 5 fisioterapeutas pélvicas no Instagram. Escolhi 2 e já me arrependi. Essa aqui tá falando o nome de um monte de coisa que pode dar no meu corpo e eu prefiro a santa ignorância nesse momento. Fui atrás de uma no presencial e custa 200 reais a sessão. Risos. Tô focada em não ser uma gestante com covid, ser uma que come pudim de chia, pesquisar pega de amamentação. Também não quero me sentir na obrigação de fazer mais um monte de exercício por dia. Tô super agoniada pensando na adaptação dos gatos na casa nova, com menos espaço. E quantos milhões as redes de proteção vão custar.

24 de janeiro, segunda. O filósofo do catarro morreu. Agora só falta enterrar toda a mediocridade que ele espalhou. Tava animada com o Douglas Silva no Big Brother, mas ele tá numa vibe “eu e a rapaziada” insuportável. Tomei um guaraná na janta e me arrependi como sempre me arrependo quando tomo refrigerante. Por que diabos não pode ser um pouco menos doce? O sabor do guaraná é ótimo, eu super tomaria de vez em quando. Mas é tanto açúcar que chega a dar aquele amarrado na boca. O guaraná antártica é da Ambev? Não lembro. Medo de acordar amanhã e não lembrar nem meu nome.

25 de janeiro, terça. Minha irmã mandou eu ouvir o álbum Planet Her, da Doja Cat. Não sei quem é e enjoei na terceira música. Só tem uma diva pop que eu não costumo enjoar na terceira música: a Rihanna, que enjoo na quinta, sexta música, mas amo. Acabei de ler a bula do remédio que preciso tomar por um mês e tem lactose na composição #veganademerda. Agendei 2 participações em podcasts, já não lembro quais. Adiaram o desfile das escolas do Rio por causa da nova ofensiva do vírus e a pollyana aqui achando que esse ano ia ser muito mais calmo.

28 de janeiro, sexta. Dei uma entrevista pro UOL. Criei coragem e li a coluna da abençoada lá no Nexo Jornal sobre os transgênicos salvarem vidas. A moda agora é usar a defesa das vacinas pra passar pano pra transgênico e agrotóxico. Mais essa. Não sei se devo entrar nesse debate porque talvez não tenha fôlego pros comentários. O Nexo também tá foda, hein? Tá indo pra mesma laia do “pluralismo” de merda da Folha. Só falta um artigo sobre racismo reverso. Paguei R$ 11,99 numa bandeja com 3 cajus e justifiquei pra mim mesma que é uma fruta com muito ferro.

29 de janeiro, sábado. Chegou uma onda de frio e parece que voltei a viver. Fui ver uns vídeos do tal Casimiro que todo mundo fala. Apareceu o Neymar no meio e desisti. Mandei mensagem com uma lista de coisas que tô precisando num grupo de compra e venda de itens de bebê. Uma moça me mandou um inbox falando que tá vendendo um trocador com estampa de nuvens. Dois segundos depois perguntou se eu era a Juliana do Jornal do Veneno. Ela reconheceu pela foto e ouve todos os episódios. Agora preciso desesperadamente ir buscar o trocador de nuvenzinhas porque meu filho merece ter a bunda limpa num trocador de outra criança cuja mãe também odeia ruralista.

30 de janeiro, domingo. Até agora só engordei 200g. Devia me preocupar? Se bem que minha mãe só engordou de mim na reta final e o vampirinho que tá aqui sugando todo o conteúdo das minhas células tá com o peso esperado pro momento. Todo mundo comenta que tô ótima assim, só com a barriga saltada, que depois fica mais fácil do corpo voltar “ao normal”. Então as pessoas não podem engordar em paz nem quando tão contribuindo pra continuidade da espécie, é isso?

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